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Você já foi a uma trilha, nêgo

Você já foi a uma trilha, nêgo? Não? Então vá!!
por: Alvaro Melo

Copyright© 2002 NivaSite. Reprodução autorizada pelo autor.
 

Você já foi a uma trilha, nêgo? Não? Então vá!!
Cabe direitinho naquela música sobre a Bahia, né? Pois é... Mas o assunto é trilha mesmo, papo jipeiro muito sério.

Dirijo-me especialmente àqueles que recém compraram um jipe, ou estão sonhando em comprar e justamente por isso compraram esta revista para aprender um pouco sobre os mistérios do off-road.

Então vamos nos completar, pois estou aqui justamente para desvendar a vocês os mistérios de uma trilha. Àqueles veteranos, peço que me ajudem. Se estiver faltando alguma coisa, por favor corrijam-me!

A trilha começa muito antes do dia efetivamente marcado para ela. Em alguns casos começa até no dia da compra do jipe, mas isso é papo cabeça e fica para outra hora. Depois da compra, dos elogios - e até alguns comentários invejosos - de algumas experiências tímidas em algum terreno baldio ou praça abandonada, só resta ao novo jipeiro se enturmar.

Através das revistas, papo de esquina, dica de amigos, etc, logo-logo o nosso amigo encontra sua tribo: um Jipe Clube!! Os mais tímidos ficam pelos cantos esperando uma oportunidade ou uma fisionomia simpática a quem abordar e os mais extrovertidos vão chegando e perguntando e se apresentando!

No final, seja qual for o método, todos se enturmam, pois jipeiro é jipeiro!! Depois daquelas conversas esclarecedoras e das perguntas de praxe sobre como se associar e participar, acaba sempre rolando o convite: - venha fazer uma trilha conosco! Pronto! Agora sim! O jipeiro vai viver sua grande experiência.

Muitas perguntas, alguns telefones anotados o lance agora é partir para comprar os equipamentos para não dar vexame de chegar na trilha sem nada para apresentar. Os melhor assessorados até conseguem fazer boas compras, os pior acabam priorizando a compra de um inclinômetro em detrimento de um bom enxadão ou de uma cinta e respectivas manilhas, mas de uma maneira geral, todos correm a gastar uma nota para se equiparem devidamente, seja lá o que julguem que seja "devidamente"...

Na véspera da trilha, a excitação é grande e a atenção ao trabalho nenhuma! O jipe já foi abastecido, os pneus calibrados o óleo completado, a água do radiador e da bateria revistas e nada da hora passar!! A noite, um suplício! Acordando a cada hora ou meia hora, dependendo do nível de excitação nosso jipeiro não ve a hora de levantar e partir para a sua aventura.

Finalmente, chega aquela hora na qual ninguém vai se espantar por encontrá-lo acordado a despeito da habitual relutância em sair da cama... Nada de nervoso! É a hora de revisar a mochila, pegar os itens que estão na geladeira, acertar a alça do isopor etc, etc... Finalmente, embarcado no jipe com toda a tralha que reuniu durante a semana e que conseguiu se lembrar na hora de sair, nosso amigo parte em busca de sua companhia que pode ser um amigo, um primo, alguém um pouco menos informado, para não ficar dando palpites constrangedores.

No local de encontro sua chegada pontual encontra um vazio desolador e preocupante. Será que é aqui mesmo? O parceiro logo pergunta se houve confirmação e mais aquilo tudo que só faz aumentar a incerteza e a preocupação. Quando nosso amigo consegue descobrir aquele papelzinho onde anotou o telefone de algum veterano e já começa a digitar o nº no celular aparece o primeiro jipe depois do seu!!

A sensação de alívio é imediata e depois dos cumprimentos normais começam os comentários sobre as dificuldades esperadas. Enquanto isso os jipes vão chegando e uma meia hora depois da hora marcada para sair, alguém se lembra que já está mais do que na hora e começam os procedimentos para a partida.

A turma dos cervejeiros já com umas latinhas na mão não dá muita pelota para a partida, afinal eles sabem que até reunir as crianças [ué, mas não era para não trazer crianças?] e algumas damas voltarem do banheiro, vai dar tempo para consumirem suas latinhas tranquilamente.

Finalmente, uma hora depois da hora marcada [tempo recorde!!] o comboio organizado parte estrada afora, com o nosso amigo encaixado entre entre um veterano e um bad boy tresloucado saído sabe-se lá de onde...

A emoção é grande. Todos os carros que passam ficam olhando. As crianças então vibram, acenam, mandam beijinhos. As velhinhas também gostam e sorriem simpaticamente. Que legal, quanta euforia! Os passarinhos estão mais lindos, o céu está mais azul e da chuva pesada de ontem nem vestígio, pelo menos por enquanto.

Depois de uma hora e meia de asfalto, finalmente um aviso pelo PX [nosso jipeiro acertou nessa compra]: Aí galera! Vamos entrar na trilha. Setas à direita, marchas sendo reduzidas o comboio sai do asfalto e adentra uma estradinha de terra onde logo em seguida para. Vamos ligar as rodas-livres e baixar a calibragem dos pneus. Epa! no meu jipe não tem calibrador! - Fácil, conte até 10 ou até 20 em cada pneu que dá certo. Galho fraco! Boa ideia, esse pessoal sabe tudo! E aí, vamos sair? Peraí! As crianças já se espalharam, os cervejeiros ja abriram suas latinhas e alí na frente tem um jipe falhando.

Vamos até lá onde já há pelo menos uns 5 mecânicos debruçados para dentro do capô buscando as causas da pane. O melhor então é entrar no clima e abrir o isopor tirar uma latinha de refrigerante e um daqueles sandubas feitos com tanto capricho. Uma meia hora depois, tudo resolvido, lá se vai novamente o comboio. Na primeira ponte, um grupo resolve passar por dentro do rio, já que ainda não estão na trilha propriamente dita e não aguentam mais esperar pelas emoções.

A passagem acaba virando desafio obrigatório e depois do 3º jipe, nada mais dá certo. A margem de saída do rio já detonada pelos pneus lameiros reage e cria um obstáculo quase intransponível. Primeira divergência. Alguns querem seguir, prevendo dificuldades que demandarão tempo para superar, outros já estão satisfeitos com o play-ground recém descoberto.

Nosso amigo com receio de dar vexame no primeiro obstáculo prefere prosseguir, mas guarda sua opinião para não entrar em confronto com seus companheiros mais próximos. Finalmente o veterano à sua frente resolve seguir pela ponte e o bad boy de trás resolve mergulhar na lama  daquilo que era um rio antes deles chegarem. Enquanto acelera seu jipe pela ponte, nosso amigo percebe de relance que há um jipe de frente para o rio puxando outro com seu guincho [ainda vai demorar para eu comprar o meu, ele pensa].

O operador está sentado no capô com os pés no parachoques e o cabo esticado, práticamente passa pelo meio de suas pernas. Na frente do jipe atolado, seu dono segura o cabo como que querendo conduzí-lo corretamente de volta ao carretel. Será que é assim mesmo a forma correta? Nosso amigo estranhou a cena em desacôrdo com os ensinamentos e conselhos lidos em todas as publicações que andou devorando na seu namôro com o off-road. Não devia ter uma patesca para facilitar? Não havendo tempo nem interlocutor para tirar dúvidas o jipeiro segue atrás de seu líder, matutando sobre o confronto da teoria com a prática quando o jipe na sua frente freia e entra por um caminho estreito, emaranhado de galhos e cipós e onde a luz do sol não chega.

Dá para perceber alí que a chuva foi recente. A ausência de sol mantem o solo úmido e as poças vão se transformando em lama. Pelo rádio vem o aviso: "é melhor ligar a tração." O jipe à sua frente, movido à diesel começa a acelerar mais forte enquanto no ar vai ficando aquela nhaca de óleo queimado. Adrenalina a mil, nosso amigo enfrenta a primeira patinada de pneus e se esforça por não perder de vista seu companheiro da frente, embora tenha sido avisado para se preocupar com o de trás, já que o da frente seria responsável por ele. Numa patinada mais forte o jipe para. Meio intuitivamente, ele engata a reduzida e o jipe agradecido vai saindo devagar e pedindo uma 2ª para não ficar tão lento nem com a rotação tão alta.

Mais à frente, uma subida muito escorregadia onde seu líder já subiu com dificuldade e uma turma espera para vê-lo subir. Um conselho soprado no ouvido levou-o a atacar com decisão e 2ª reduzida o subidão assustador. Os pneus lameiros novinhos fizeram sua parte e o jipe acabou chegando lá em cima até um pouco mais rápido que o necessário, tamanha a ansiedade do piloto! Logo adiante mais uma parada.

Difícil de saltar do jipe, tamanho o emaranhado, nosso amigo logo chegou ao motivo da parada. Numa erosão mais funda um jipão tombado e uma turma se movimentando para ajudar. As explicações eram as mais diversas. - Devia ter acelerado mais! - Devia ter cortado reto pro outro lado! - Devia ter avançado devagar! Ainda na dúvida, o neo-jipeiro dá uma olhadinha no relógio e se espanta: 16:30h!! Já??? Puxa nem sentí o tempo passar... É por isso que estou com fome.

Achando que já há gente demais para ajudar ele volta ao jipe para comer mais um sanduba. Ao abrir o isopor, uma cena chocante! Aquele saco de gêlo tão eficiente havia se rompido com os solavancos e o gêlo semi-derretido, boiava na água fria com os sandubas encharcados... Na falta de alternativas, vamos traçar esse misto de sopa-sanduiche e rezar para a fome não ficar muito exigente...

Na linha de frente, as dificuldades se sucedem pela falta de espaço para posicionar um jipe com guincho para ajudar no resgate do tombado. Depois de muita manobra e muito braço finalmente o jipão volta à sua posição natural. Melancólicamente no seu interior as latinhas de cerveja não consumidas se misturavam às vazias pelo chão, já que o isopor havia aberto na capotagem e espalhado seu conteúdo. Nossa! Quanta lata vazia! Será que ele tomou isso tudo?

Va'mbora pessoal que ainda tem muita trilha pela frente. Os próximos jipes a passarem pela dificuldade são acompanhados de perto pelos demais e com a ajuda dos enxadões a erosão foi amansada e domada por todos. Lá pelas 19:00h o grupo já havia avançado uns 600 metros e o nosso amigo, de camiseta já começa a se questionar: "Quequieu tô fazendo aqui no meio desses malucos?"

Seu parceiro, esperado para ir com a família ao aniversário de um sobrinho, já não diz mais nada, só suspira, pensando na dona patroa. - O celular está pegando? - Nadica de nada!! - Tô ferrado... De repente um veterano percebe o frio e o olhar desalentado, quase desistente.

- Parceiro, toma aqui essa capa que eu trouxe para a chuva, não é o ideal mas vai te proteger um pouco da friagem. Afinal não está chovendo e eu não preciso dela. Com a fé no genêro humano restabelecida nosso amigo transita a pé pelo comboio paralisado enquanto os da frente superam mais outro obstáculo e alguém oferece um golinho numa pinguinha. Dois goles já foram o suficiente para reativar uma circulação mais confortável, com aquele calorzinho se espalhando pelas veias...

Na frente uma turma maneja enxadões e pás, enquanto outros esperam para ajudar até que alguém alerta que já há condições de passar. A discussão, alimentada pelo cansaço e eventualmente pelos vapores etílicos chega às raias do confronto, até que a voz do bom senso prevalece e a turma parte para checar a obra! Escolhido pela posição favorável, um jipe avança e supera o obstáculo se posicionando para prestar uma eventual ajuda aos demais.

Chega a vez do nosso amigo que capricha na arremetida mas encalha no meio. Prontamente alguém se aproxima e engata uma cinta em seu gancho dianteiro e orienta o resgate. Foi tão rápido e eficiente que nosso amigo nem teve tempo para se envergonhar por não ter passado. Afinal ele era um estreante! Gente mais experiente também tinha ficado...

Finalmente, a chegado a um ponto onde, segundo os mais experientes, não deveriam haver mais dificuldades. No comboio, ao invés da algazarra da partida, um silêncio cansado. As crianças, aninhadas nos bancos trazeiros dormem enquanto que as mulheres meditam sobre a conveniência de se apresentarem nas próximas trilhas, ou aproveitarem para bater pernas num shoping, programa mais civilizado e palatável para aquelas que, sem grande vocação jipeira, vão às trilhas por falta de opção ou de confiança no parceiro...

Mais umas duas horas e meia de estrada, rodando devagar pois no comboio há jipes rebocando outros que sucumbiram ao esforço, e o grupo chega ao ponto de dispersão.

Possivelmente alguns ainda vão encarar dificuldades com seus jipes antes de chegar em suas casas, afinal a lei de Broock é implacável especialmente com aqueles que não a respeitam e partem para as trilhas com problemas potenciais. Ora, se alguma tem chance de dar errado, pela lei citada, ela dará...

Nosso amigo ainda tem que deixar seu lamuriento companheiro em casa, esquivando-se naturalmente do convite de entrar para ajudar nas explicações, afinal já são duas da madruga!!

Domingo numa preguiça conveniente, leva o neo-jipeiro a ir para o trabalho na 2ª naquele jipe imundo, testemunha muda do seu programa e que levará varios amigos a perguntarem como foi o programa.

Esse, aliás é o ponto alto da coisa. Com um álbum de fotos na mão e a garganta solta ele se promove de iniciante a veterano e usando o novo jargão já absorvido, relata à patuleia embasbacada seus momentos de glória na lama!! 

Tô mentindo Terta? Então era isso. Abração a todos e até a próxima. 

 

 

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